O Piquenique Trágico Alexandre Pignanelli

Meados da década de 1910 na então Villa Americana, ainda distrito de Campinas. Em pouco mais de dez ruas surgidas ao redor da estação ferroviária, a população não chegava a 2.000 habitantes. Como era de se esperar para um pequeno vilarejo como esse, a repercussão das notícias locais alcançava no máximo as cidades vizinhas. Desde muito, a única ocasião em que Villa Americana tornou-se notícia no restante do Estado foi durante a chamada “questão das divisas”, em que Campinas e Santa Bárbara disputaram, a partir dos últimos anos do século XIX, o direito ao território da vila. Essa disputa só se encerrou em 1904, com a decisão da Câmara dos Deputados de São Paulo (atual Assembleia Legislativa) a favor de Campinas.

Mas um fato ocorrido por aqui nessa época colocou Villa Americana em destaque em jornais de todo o Brasil. Uma comovente tragédia, envolvendo pessoas comuns, foi capaz de atrair a atenção de leitores ávidos por dramas da vida real. Posteriormente, uma famosa música, composta no mesmo dia da tragédia, ajudaria a aumentar o interesse sobre o episódio e a consolidá-lo no imaginário coletivo de várias gerações de americanenses. Era o “Piquenique Trágico”.

No entanto, a história “oficial”, contada e recontada por décadas em livros e artigos de jornais, foi ingrata com a verdade dos fatos. Em breve resumo, o que sempre se soube é que em um dia de 1914, um casal de namorados se divertia no Parque Ideal, quando o barco em que estavam veio a virar, resultando na morte da garota, filha de um irmão de Antônio Álvares Lobo, ex-intendente (prefeito) de Campinas e então presidente da Câmara dos Deputados do Estado.

Não, não havia um casal de namorados no barco, a jovem vítima não era sobrinha de Antônio Lobo e o fato nem mesmo ocorreu em 1914, apesar de seu “centenário” ter sido bastante comentado em 2014, na imprensa e nas redes sociais. E o passar do tempo também se encarregou de apagar da história a existência de um jovem herói, que com seu altruísmo evitou que o desastre do Parque Ideal fosse ainda maior.

Na realidade, o trágico piquenique ocorreu em 14 de maio de 1916. Hoje, portanto, completa exatamente 100 anos.

A história real está contada a seguir, com atenção voltada para três jovens de 15 a 19 anos, que tiveram suas vidas profundamente marcadas naquela tarde de domingo: Agar da Costa Lobo, José Santiago e Germano Benencase.

Continue lendo