O Piquenique Trágico Alexandre Pignanelli

Meados da década de 1910 na então Villa Americana, ainda distrito de Campinas. Em pouco mais de dez ruas surgidas ao redor da estação ferroviária, a população não chegava a 2.000 habitantes. Como era de se esperar para um pequeno vilarejo como esse, a repercussão das notícias locais alcançava no máximo as cidades vizinhas. Desde muito, a única ocasião em que Villa Americana tornou-se notícia no restante do Estado foi durante a chamada “questão das divisas”, em que Campinas e Santa Bárbara disputaram, a partir dos últimos anos do século XIX, o direito ao território da vila. Essa disputa só se encerrou em 1904, com a decisão da Câmara dos Deputados de São Paulo (atual Assembleia Legislativa) a favor de Campinas.

Mas um fato ocorrido por aqui nessa época colocou Villa Americana em destaque em jornais de todo o Brasil. Uma comovente tragédia, envolvendo pessoas comuns, foi capaz de atrair a atenção de leitores ávidos por dramas da vida real. Posteriormente, uma famosa música, composta no mesmo dia da tragédia, ajudaria a aumentar o interesse sobre o episódio e a consolidá-lo no imaginário coletivo de várias gerações de americanenses. Era o “Piquenique Trágico”.

No entanto, a história “oficial”, contada e recontada por décadas em livros e artigos de jornais, foi ingrata com a verdade dos fatos. Em breve resumo, o que sempre se soube é que em um dia de 1914, um casal de namorados se divertia no Parque Ideal, quando o barco em que estavam veio a virar, resultando na morte da garota, filha de um irmão de Antônio Álvares Lobo, ex-intendente (prefeito) de Campinas e então presidente da Câmara dos Deputados do Estado.

Não, não havia um casal de namorados no barco, a jovem vítima não era sobrinha de Antônio Lobo e o fato nem mesmo ocorreu em 1914, apesar de seu “centenário” ter sido bastante comentado em 2014, na imprensa e nas redes sociais. E o passar do tempo também se encarregou de apagar da história a existência de um jovem herói, que com seu altruísmo evitou que o desastre do Parque Ideal fosse ainda maior.

Na realidade, o trágico piquenique ocorreu em 14 de maio de 1916. Hoje, portanto, completa exatamente 100 anos.

A história real está contada a seguir, com atenção voltada para três jovens de 15 a 19 anos, que tiveram suas vidas profundamente marcadas naquela tarde de domingo: Agar da Costa Lobo, José Santiago e Germano Benencase.

O Parque Ideal

O Parque Ideal era sem dúvida a grande atração da Villa Americana, sendo bastante conhecido não apenas nas redondezas como também em outras regiões do Estado. Era um misto de atrativos naturais e de construções idealizadas e executadas pelo seu proprietário, Basílio Bueno Rangel, um dos fundadores da cidade. O Parque foi inaugurado em meados da década de 1900, e abria seus portões ao público principalmente aos finais de semana e feriados.

O público se encantava com os bosques, canais, grandes árvores, alamedas arborizadas, bambuzais adaptados para a realização de piqueniques, barracas, jogos, quiosques e animais de diversas espécies – especialmente pássaros, livres ou em viveiros, mas também bandos de macacos e até um grande bicho preguiça. A música era presença marcante e peça fundamental para os chamados festejos e bailes “campestres”, diversão preferida dos jovens e famílias da época. Os principais músicos da cidade, como Germano Benencase, Silvino José de Oliveira, Silvio Bianchi e Heitor Cibin, e suas bandas e orquestras, se revezavam com frequência nos coretos e bailes do parque.

Na primavera de 1909 foi inaugurado um salão de baile, no lado da atual Vila Pavan. Mais acima havia outro prédio, onde funcionavam bar e restaurante. Na mesma direção, ainda mais acima, se localizava o primeiro campo de futebol da cidade, já utilizado na época do “piquenique trágico” pelo Arromba, depois Rio Branco. Do outro lado do Parque Ideal, na região da atual rua Princesa Isabel, desde setembro de 1910 funcionava um mirante, que propiciava uma visão única do parque e da Villa Americana.

Parque Ideal, 1915: trecho de um canal com o mirante ao fundo.

Parque Ideal, 1915: trecho de um canal com o mirante ao fundo.

Além dos frequentadores locais, a fama do Parque Ideal atraía público de outras cidades. Era comum a Companhia Paulista de Estradas de Ferro fazer correr trens especiais, para transportar grupos de Campinas, Rio Claro, Jundiaí e outros locais mais distantes. Há registros de trens com 15 vagões, trazendo mais de 1.500 pessoas para passarem domingos ou feriados no parque. Ou seja, a população de Villa Americana praticamente dobrava nessas ocasiões.

O Parque tinha seu portão principal na atual rua Fernando Camargo, entre onde se localiza hoje a escadaria principal da praça Comendador Müller e a rua Rui Barbosa, e a partir daí se estendia em direção ao Córrego do Parque, ocupando também as encostas dos dois lados, regiões que hoje pertencem ao Centro, Jardim Girassol, Vila Pavan e Vila Medon, até, aproximadamente, a região da atual rua Gonçalves Dias.

Na altura da atual rua Padre Epifânio Estevam havia uma grande barragem que represava as águas do córrego, formando uma lagoa que ocupava toda a região onde se localizam hoje a Prefeitura, a Delegacia e a Clínica São Lucas. A lagoa era conhecida como Tanque do Parque ou Tanque da Paulista, pois um acordo com Basílio Rangel permitia que a Companhia Paulista utilizasse as águas para suas necessidades na estação e nas operações ferroviárias. Esse tanque já havia causado um grande acidente em novembro de 1914, quando o rompimento da barragem, durante forte temporal, provocou uma inundação de grandes proporções no povoado. As águas alcançaram mais de um metro de altura, invadindo várias casas e a estação ferroviária. Não houve mortes, mas os prejuízos materiais foram enormes.

No tanque, barcos para três ou quatro pessoas, alugados por períodos de tempo, faziam a diversão de jovens e famílias, sendo essa uma das atrações mais disputadas do parque. Em outras ocasiões, os mais atléticos competiam nesses barcos em regatas organizadas na lagoa.

Após a barragem, as águas seguiam por dois canais (e não um, como hoje), que corriam em paralelo com uma faixa de terra entre eles, atravessavam toda a extensão do parque e parte da região central do vilarejo, cruzando a avenida Dr. Antônio Lobo ao lado da estação e desaguando mais a frente no Quilombo. Quatro ilhas eram um atrativo à parte ao longo dos canais, além de várias pontes.

Parque Ideal, 1915: um dos canais, uma ilha e ao fundo um dos coretos e parte do salão de baile – como referência, essa ilha se localizava na altura dos atuais edifícios Marrocos e Notre Dame, na rua Presidente Vargas.

Parque Ideal, 1915: um dos canais, uma ilha e ao fundo um dos coretos e parte do salão de baile – como referência, essa ilha se localizava na altura dos atuais edifícios Marrocos e Notre Dame, na rua Presidente Vargas.

O Parque Ideal viveu seu apogeu nos 15 anos que vão desde sua inauguração até a morte de Basílio Rangel em 1919. A partir daí, com as terras divididas por um grande número de herdeiros, começaram a surgir as ruas e os loteamentos, tendo o parque entrado em decadência e desaparecido aos poucos durante as décadas seguintes. Hoje, o único pedaço restante é a praça Parque Ideal, apesar de totalmente descaracterizada pela desastrosa reforma promovida na administração Diego De Nadai.

O acidente

O domingo 14 de maio de 1916 começou como muitos outros em Villa Americana. Um dia típico de outono, com céu claro e temperatura variando entre 16°C no início da manhã até cerca 25°C no meio da tarde. Naquele domingo não haveria trens especiais a trazer grandes excursões de outras cidades para o Parque Ideal; o público seria formado pelos próprios vilamericanenses, que tinham o parque como passeio obrigatório aos domingos, e por famílias e pequenos grupos vindos de cidades mais próximas.

Entre os diversos visitantes estava um grupo formado por professores de Campinas. Os relatos da época registraram os nomes de pelo menos quatro deles: Paulo Afonso de Andrade, João de Barros (ambos professores da antiga Escola Normal Primária), Julia Albernaz e Leonor Vieira Albernaz. Também faziam parte do grupo João Mariano da Costa Lobo, funcionário do Ginásio Estadual de Campinas (atual Colégio Culto à Ciência), e sua família: a esposa Irene, a filha mais velha, Agar, de 15 anos, e outros filhos menores.

O grupo deixou Campinas pelo trem das nove horas da manhã, e portanto antes das dez horas já estava no Parque Ideal. Ao longo do dia todos se divertiram pelos vários recantos e atrações do parque; como almoço, levaram o necessário para um piquenique. Já no período da tarde, os adultos puderam aproveitar o baile que se realizava no salão, revezando-se nos cuidados com as crianças que continuavam brincando no parque. Um morador da vila, Francisco Lapierre, era conhecido de alguns dos professores e nesse momento já estava integrado ao grupo. Lapierre, francês, então com 54 anos, era dentista e artista plástico, além de professor de pintura de muitos americanenses durante as mais de cinco décadas em que viveu por aqui.

Parque Ideal, 1917: foto tirada já no final do tanque, com vista para a região da atual Clínica São Lucas, onde a lagoa já começava a se estreitar.

Parque Ideal, 1917: foto tirada já no final do tanque, com vista para a região da atual Clínica São Lucas, onde a lagoa já começava a se estreitar.

Por volta das 15h30, atendendo aos desejos dos mais jovens, parte do grupo dirigiu-se ao tanque do parque para o quase obrigatório passeio de barco. Em um barco entraram cinco pessoas, sendo três delas conhecidas com certeza: Agar da Costa Lobo, sua irmã mais nova, Umbelina, e Francisco Lapierre. Já sobre os outros dois ocupantes há divergências entre os poucos relatos que sobreviveram a esses cem anos. O quarto ocupante seria outro irmão mais novo de Agar, Renato Mariano, ou então sua mãe, Irene. Já a quinta pessoa seria uma amiga de Agar vinda de Campinas com o grupo, Sebastiana, ou, então, a já citada Julia Albernaz.

Agar da Costa Lobo, 1907: única foto conhecida, ao lado do irmão Renato.

Agar da Costa Lobo, 1907: única foto conhecida, ao lado do irmão Renato.

Ao iniciarem o passeio, logo usaram os remos para se dirigirem à região central do tanque, onde havia mais espaço para o navegar dos barcos. Devido ao represamento das águas e à topografia do local, essa região também era a de maior profundidade. Em dado momento, após algum movimento brusco, gritos e expressões de medo, o barco virou, atirando todos os seus ocupantes à água. Nenhum dos cinco sabia nadar, característica comum em uma época em que piscinas inexistiam, e nadar em rios ou lagoas não era uma atividade frequente, pelo menos para moradores das áreas urbanas. Os relatos da época dizem que as demais pessoas próximas, às margens do tanque ou em outros barcos, permaneceram totalmente paralisadas, estupefatas com a cena que presenciavam, com cinco pessoas lutando pela vida em meio às águas do tanque.

Foi nesse momento que surgiu o herói improvável, um garoto de apenas 15 anos completados quatro dias antes: José Santiago. E se, como já comentado no início deste texto, a história foi ingrata com o “piquenique trágico”, esquecendo-se dos fatos reais em favor de outras narrativas, com José Santiago a ingratidão foi ainda maior. Seus atos de bravura foram totalmente esquecidos, e seu nome foi simplesmente apagado da história. Nesses 100 anos, os vários registros em livros e na imprensa de Americana nunca fizeram qualquer menção ao menino que, com sua coragem, salvou várias vidas naquele dia de 1916.

Nascido em Villa Americana em 1901, José era filho de Augustine Duport, modista francesa que ao se casar em 1899 com o português Manoel Santiago, ferroviário da Companhia Paulista, e abrasileirar o prenome, passou a assinar Augustinha Duport Santiago. O casal teve cinco filhos: depois de José, vieram Dinorá, Joaquim, Aída e Luiza. Augustinha viveu por mais de sete décadas em Americana, até sua morte em 1968, sempre na rua Doze de Novembro, em casa localizada onde hoje se encontra a agência do Bradesco.

Família Santiago, c. 1914: da esquerda para a direita, Luiza, Dinorá, José, Aída e Augustinha Duport Santiago; essa é a única foto conhecida de José Santiago contemporânea ao acidente.

Família Santiago, c. 1914: da esquerda para a direita, Luiza, Dinorá, José, Aída e Augustinha Duport Santiago; essa é a única foto conhecida de José Santiago contemporânea ao acidente.

Voltando aos fatos no Parque Ideal, como única exceção à perplexidade dos presentes que assistiam inertes à dramática cena, o jovem José Santiago, de forma instintiva, se jogou às águas na tentativa de salvar as cinco pessoas que se debatiam em desespero. De compleição física apenas mediana, mas destemido e bom nadador, arriscou sua própria vida para ajudar os acidentados. Uma das cenas que deixaram forte impressão nas pessoas que a assistiram, foi o salvamento de uma das vítimas, puxada pelos cabelos. Já para o próprio Santiago, anos depois, a lembrança que permaneceu mais forte foi a do momento em que viu, sob as águas, uma “flor”. Era na verdade a imagem formada pelo vestido da garota Umbelina, que também foi salva. Já para retirar Francisco Lapierre, o maior entre os ocupantes do barco, José Santiago contou com a ajuda de outros presentes, que com a evolução do resgate começaram a se aventurar nas partes mais rasas do tanque.

Minutos depois, não se via mais ninguém na água. Dos cinco ocupantes do barco, quatro foram salvos e já estavam seguros à margem do tanque. Mas não havia nenhum sinal de Agar. Os gritos, a movimentação anormal e o pânico geral atraíram para o tanque uma grande quantidade de pessoas que estavam em outras áreas do parque, e até mesmo moradores de Villa Americana que estavam em suas casas naquela tarde. João Mariano, pai de Agar, se encontrava próximo a um dos coretos do parque, em companhia do colega João de Barros. Quando chegou à lagoa o fato já estava consumado.

Foram dolorosos os poucos minutos em que as pessoas da família da infeliz vítima de tão trágico passeio, ansiosas, fitavam a luta do jovem salvador que com tanta abnegação se impôs à admiração de todos.

A Gazeta (São Paulo), 15/5/1916

Para atender os resgatados, foram chamados os médicos Liráucio Gomes e Cícero Jones, e os farmacêuticos Mário Meirelles e Eduardo Medon. Dos quatro socorridos, Francisco Lapierre era o que se encontrava em estado mais grave – inconsciente e com um quadro de “congestão cerebral”, segundo os médicos. Esse diagnóstico era comum à época em situações de afogamento, e o prognóstico não era favorável. Mas, de forma surpreendente, nos dias seguintes Lapierre começou a dar sinais de melhora, recuperando-se completamente algumas semanas depois.

José Santiago, il giovanetto che rivelò un coraggio straordinario, salvando ben quattro persone, che correvano pericolo di annegare, è fatto segno alle più meritate e significative dimostrazioni de simpatia.

Fanfulla (São Paulo), 16/5/1916

Com exceção dos envolvidos no atendimento médico, todas as demais pessoas ao redor do tanque continuavam atônitas, não querendo aceitar o que àquela altura já se mostrava como certeza: a morte da jovem Agar da Costa Lobo. Apesar dos relatos divergirem quanto ao tempo, sabe-se que a espera foi longa; para os presentes, os cerca de 30 minutos que se passaram até o corpo de Agar vir à tona duraram uma eternidade. O sofrimento foi geral, mas a reação desesperada dos pais foi o momento mais forte. Atacados por violenta crise nervosa, João Mariano e Irene da Costa Lobo reviviam ali terríveis experiências que tiveram em 1911 e em 1915, com a morte de outros filhos ainda crianças (um menino de 4 anos e uma menina de 2 meses).

[José Santiago] Foi heroico, foi abnegado. Lutando denodadamente contra as águas, conseguiu salvar todos os passageiros do barco sinistro, menos a desventurada senhorita Agar, que logo foi ao fundo.

Diário do Povo (Campinas), 16/5/1916

Cícero Jones emitiu o atestado de óbito de Agar, registrando a causa como “asfixia por submersão”. Devido ao estado psicológico da família, e também pelas condições do tempo, que no final da tarde começou a virar, resultando em fortes chuvas, decidiu-se passar a noite em Villa Americana. Pais, filhos e o corpo de Agar foram levados para a residência de Antônio Sarmento Filho, campineiro que em 1916 era escrivão da Coletoria Federal em Villa Americana.

Na manhã seguinte partiram com o primeiro trem, chegando à estação de Campinas por volta das 6h40. O velório se deu na residência da família, à rua General Osório, 192 (numeração antiga, localiza-se atualmente no trecho entre as ruas José Paulino e Ernesto Khulman, próximo ao Palácio da Justiça). Ao meio-dia um cortejo fúnebre se dirigiu para a Matriz de Santa Cruz, atual Basílica Nossa Senhora do Carmo, onde aconteceram as exéquias. O enterro foi acompanhado por uma pequena multidão, com numerosa presença de alunos de todas as escolas de Campinas.

Se em Americana José Santiago foi esquecido, o mesmo não se pode dizer de Campinas, onde recebeu homenagens nos meses seguintes. Guardou como lembrança, até o final da vida, um soneto escrito em julho de 1916 para enaltecer seu heroísmo no episódio do Parque Ideal. O autor do poema, Artur Segurado, era amigo de João Mariano da Costa Lobo e diretor do então Terceiro Grupo Escolar de Campinas. Essa escola, por sinal, hoje leva seu nome – Escola Estadual Artur Segurado.

Soneto “Ao pequeno herói de V. Americana”, julho de 1916: homenagem a José Santiago.

Soneto “Ao pequeno herói de V. Americana”, julho de 1916: homenagem a José Santiago.

A família de José Santiago passaria nos anos seguintes pelas mesmas fatalidades que a família Costa Lobo havia passado, com a perda de dois filhos jovens: Joaquim morreu em 1917 com 11 anos, e Luiza em 1930 com 19 anos. A morte de Luiza comoveu Villa Americana; a jovem era conhecida e querida por todos, e já despontava naquele momento como a principal artista plástica da cidade, pupila predileta de Francisco Lapierre.

Villa Americana, c. 1929: à esquerda, em primeiro plano, Francisco Lapierre; sentada ao seu lado, Luiza Santiago.

Villa Americana, c. 1929: à esquerda, em primeiro plano, Francisco Lapierre; sentada ao seu lado, Luiza Santiago.

José Santiago deixou Villa Americana alguns anos após o acidente, vivendo inicialmente em São Carlos, onde se casou, e depois em Araraquara. Trabalhou como marceneiro, carpinteiro, construtor e negociante, na Companhia Paulista, no Departamento de Estradas de Rodagem e como autônomo; aposentou-se em 1972 e morreu em 8 de setembro de 1982. José Santiago e a esposa Irene tiveram quatro filhos: Launete (já falecida), Claudete, Laurete e Laerte, esses residindo atualmente em Araraquara.

Família Santiago, 1932: José, a esposa Irene, e os filhos Laerte e Launete.

Família Santiago, 1932: José, a esposa Irene, e os filhos Laerte e Launete.

A música

A notícia do dramático acidente foi suficiente para colocar Villa Americana nos jornais de todo Brasil. Mas naquele mesmo 14 de maio de 1916, e no mesmo local, o Parque Ideal, estava sendo concebida uma obra primorosa que daria notoriedade ao “piquenique trágico” durante os cem anos seguintes – a valsa de Germano Benencase.

Germano Benencase chegou com a família no Brasil por volta de 1899, poucos anos após nascer em Vietri sul Mare, pequena cidade italiana localizada na famosa Costa Amalfitana (por coincidência, o atual prefeito de Vietri sul Mare é um Benencase). Documentos registram pelo menos três anos possíveis para o nascimento – 1895, 1896 ou 1897 (dia e mês são conhecidos: 9 de abril). Adotamos aqui 1897 como o mais provável, pois o próprio Germano mencionou várias vezes esse ano em entrevistas. Após temporadas em São Paulo, Jundiaí e Campinas, a família chegou a Villa Americana ainda na primeira década do século. Tarquino, o pai, era alfaiate, tendo se estabelecido com uma oficina na avenida Dr. Antônio Lobo, na altura do atual número 343.

Germano desde cedo demonstrou vocação para a música. Para trilhar seu caminho como músico, teve que contrariar a vontade do pai, que preferia ver o filho seguindo seus passos como alfaiate. Apesar dessa preferência, tanto Tarquino como a esposa, Ana, traziam de sua formação na Itália uma forte cultura artística, que se tornou uma influência decisiva para os filhos: dos nove irmãos, quatro se tornaram artistas reconhecidos – além de Germano, Paschoal foi um talentoso violinista, compositor e maestro, Danunzio, um exímio flautista e Amálio, ou Lulu, tornou-se o grande humorista que fez fama como apresentador do programa “Festa na Roça” nas rádio Difusora e Tupi de São Paulo.

Germano Benencase, c. 1920.

Germano Benencase, c. 1920.

O bandolim foi o primeiro instrumento musical de Germano Benencase, e o mais constante ao longo de sua carreira. Como educação formal, fez apenas o curso primário no antigo Grupo Escolar Corrêa de Mello, em Campinas. Foi essencialmente um autodidata. Em Villa Americana, no início de sua educação musical, teve um único professor, e por apenas um mês: José Augusto de Oliveira. Este, a propósito, foi o responsável por outro fato que colocou Villa Americana em destaque na imprensa nacional, já na década de 1920 – o assassinato do subprefeito Cândido Cruz.

Segundo declarações do próprio Germano, sua primeira música foi composta em março de 1913, a valsa Pensando em Ti. Muito popular no Brasil no início do século XX, a valsa também era o gênero musical preferido do jovem musicista. Nos anos seguintes Germano se desenvolve rapidamente como compositor, produzindo um precioso conjunto de valsas que ganharam reconhecimento imediato em Villa Americana e região, para em seguida tornarem-se populares em todo Brasil: Triste, Saudades de Adelaide, As Flores do Meu Amor, Soou a Hora de Extinguir-se o Nosso Amor, Aniversário Fatal, Palestra Itália, Angelina, Valsa da Morte, Agonia Lenta e Saudades de Tula, entre outras.

Nessa década de 1910, o mercado fonográfico no Brasil era restrito ainda às capitais, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro. Havia apenas duas gravadoras no país, e o mercado de discos era reduzido. A principal forma de divulgação musical eram as partituras, impressas e distribuídas por casas editoras especializadas. Germano Benencase teve suas composições publicadas pelos principais editores da época, como Irmãos Vitale, Mangione, Casa Levy e A. Di Franco.

Na tarde de 14 de maio de 1916, Germano Benencase estava em sua residência quando a notícia do acidente no Parque Ideal correu pela cidade. Chegou à beira da lagoa quando o corpo de Agar ainda não havia sido encontrado. De acordo com depoimentos do próprio Germano, anos depois, foi naquele momento, vivenciando o trauma coletivo que culminou com a retirada do corpo de Agar de dentro do tanque, que veio a inspiração para compor uma valsa. Rabiscou ali mesmo, de forma improvisada, a primeira e a segunda partes dessa música. Logo mais, impressionado pelo sofrimento e pelo choro de Irene, mãe de Agar, durante o cortejo que se formou para levar o corpo de Agar até a residência de Antônio Sarmento Filho, compôs a terceira parte da valsa.

Nas semanas seguintes continuou a aperfeiçoar a composição, e no final de junho a versão definitiva estava pronta. Para nominar a música recém-criada, inspirou-se no título que o jornal Comércio de Campinas usou para publicar notícias sobre o acidente em Villa Americana: “Piquenique Trágico”.

Comércio de Campinas, 15/5/1916: a inspiração para o título da música.

Comércio de Campinas, 15/5/1916: a inspiração para o título da música.

Como era costume entre os compositores da época, Germano Benencase enviou cópias da partitura para os principais jornais de Campinas e São Paulo, que faziam divulgação gratuita das obras recebidas. Pouco tempo depois a partitura já estava sendo impressa e distribuída. O sucesso foi imediato; pianistas, solistas de outros instrumentos, conjuntos, bandas e orquestras passaram a incluir a música em seus repertórios. Em poucos meses, já era presença certa nas praças e coretos das cidades do interior e nos salões das grandes cidades brasileiras. Cem anos depois, essa presença continua – Piquenique Trágico faz parte até hoje do repertório de bandas, conjuntos orquestrais e escolas de música em todo país (a Editora Mangione mantém a partitura em seu catálogo há 99 anos, ininterruptamente).

O sucesso da composição baseada no acidente do Parque Ideal foi tão grande que despertou a atenção da gravadora Odeon, no Rio de Janeiro. Em 1918, Piquenique Trágico e outras três valsas de Germano Benencase são gravadas pela Orquestra Odeon e lançadas em discos de 78 rotações, fato raríssimo na época para um artista de uma pequena vila do interior. As outras valsas gravadas foram Saudades de Adelaide, Valsa da Morte e Aniversário Fatal. Em 1919, novas gravações e discos lançados pela Odeon: As Flores do Meu Amor e Angelina, ambas com a Orquestra Andreozzi, e Agonia Lenta, com o Grupo do Pixinguinha.

Disco de 78 rpm Odeon, 1918: a primeira gravação de Piquenique Trágico.

Disco de 78 rpm Odeon, 1918: a primeira gravação de Piquenique Trágico.

Clique para ouvir essa gravação: Orquestra Odeon (1918) – Pic-Nic Trágico

Apesar de ter se tornado um clássico em sua forma instrumental, ao longo dos anos Piquenique Trágico recebeu pelo menos duas letras. A primeira ainda em 1916, de autoria de Inácio Dias Leme, professor em Villa Americana e grande amigo de Germano Benencase. Essa letra traz uma narrativa dos fatos ocorridos no Parque Ideal, e, mesmo não tendo sido gravada, se popularizou bastante na cidade e na região. Aurely Lobo Villagelin, atualmente com 82 anos, filha de Renato Mariano da Costa Lobo, ainda se lembra da letra na íntegra. Anos depois, Gomes de Almeida, parceiro frequente de Germano Benencase, criou outra letra para Piquenique Trágico, porém sem nenhuma relação com os fatos de 1916 – em tom dramático, a letra fala da desventura de um amor perdido. Um disco de 78 rotações com essa versão da música foi lançada em junho de 1941 pela Odeon, interpretada por duas estrelas da música brasileira da época, o cantor Gilberto Alves e o acordeonista Antenógenes Silva. O disco foi um grande sucesso de vendas, tendo sido continuamente relançado pela gravadora por muitos anos.

Em 1919, auge do sucesso de suas composições, Germano se casa com Adelaide Andreoli, e nos anos seguintes nascem os quatro filhos do casal: Dora, Vera, Danunzio (o nome foi dado em homenagem ao irmão de Germano, que morrera precocemente em outubro de 1922) e Antônio. Porém, o feliz casamento terminou de forma abrupta em 2 de janeiro de 1925, com a morte de Adelaide. E em outubro do mesmo ano um novo drama atinge Germano: a morte do filho mais novo, Antônio, com apenas um ano de idade.

As perdas do filho e da esposa abalam fortemente o compositor. Sua produção musical a partir de então, e durante vários anos, passa a ser intensamente influenciada pela figura da morte, como revelam os títulos das composições dessa fase: Ao Pé da Cruz, Caminho do Calvário, Oração no Campo Santo, Marcha Fúnebre e Prelúdio da Morte, entre outros.

Germano Benencase sempre viveu da música. Além de se apresentar em bailes, festas e eventos públicos, desde 1919 era o diretor da orquestra do Cinema Central em Villa Americana – os filmes mudos eram acompanhados pela orquestra, ao vivo, com composições muitas vezes de autoria do próprio Benencase, criadas especialmente para cada filme. No final da década de 1920 o advento do cinema sonoro reduz as oportunidades de trabalho em Villa Americana, e Germano opta pelo magistério.

Entre 1933 e 1964 lecionou no Colégio Piracicabano, onde tornou-se um ícone como professor, músico e regente, sendo responsável pela formação de um grande número de músicos na cidade. Além de dirigir vários grupos instrumentais e vocais do próprio colégio, Germano Benencase foi o maestro fundador da Orquestra Rizzi, em 1958. Já na década de 1960, a união desse conjunto com a Orquestra Piracicabana de Amadores formaria o embrião da atual Orquestra Sinfônica de Piracicaba.

Essa Orquestra foi responsável por uma das últimas gravações de Piquenique Trágico, em concerto realizado em 20 de dezembro de 2012 e lançado em DVD. Além da qualidade do arranjo e da interpretação, essa gravação, uma das melhores da clássica composição de Germano Benencase, traz um simbolismo particular: foi a última apresentação do regente da orquestra, Egildo Rizzi, aluno de Benencase no Colégio Piracicabano na década de 1940, e posteriormente instrumentista da Orquestra Rizzi sob a comando do ex-professor. Egildo Rizzi morreu 11 dias após o concerto, aos 76 anos.

Em 1960, Benencase passa a lecionar também em Americana, no Educandário Divino Salvador, onde fica até o encerramento das atividades da escola, em fins de 1974. Germano Benencase morreu em Americana, em 18 de março de 1975.

Tanto em vida quanto após a sua morte, Benencase foi reconhecido, principalmente em Piracicaba e Americana, pelo seu talento como instrumentista, maestro e professor, pela sua cultura e pela sua dedicação à música e à família. Mas até hoje não se valorizou adequadamente sua grandeza e seu legado como compositor popular, principalmente em sua primeira fase, que vai até a metade da década de 1920. Cerca de uma dezena de músicas criadas por Germano Benencase rivalizam com o que de melhor se produziu em termos de valsas brasileiras nesse período, estando no mesmo patamar de composições de grandes artistas como Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Erotides de Campos e Américo Jacomino, entre outros.

Passados cem anos dos fatos que originaram essa narrativa, reforça-se o papel do acaso na história. Um domingo que começou como qualquer outro, um piquenique, um descuido, um acidente… Uma manifestação singela do acaso e as vidas de Agar da Costa Lobo, José Santiago e Germano Benencase foram substancialmente modificadas, bem como as de suas famílias e amigos. E a história também. Durante um século, muitas foram as repercussões da tarde do domingo, 14 de maio de 1916, em Villa Americana.

Colaboraram: Andréia Silveira Torres Santiago, Aurely Lobo Villagelin, Daniza Benencase, Divisão de Acervo Histórico da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Fabiana Nascimento Pignanelli, Fábio Benencase, José Carlos de Moura (Orquestra Sinfônica de Piracicaba), José Luiz Lobo Villagelin, Laerte Torres Santiago, Mauro Luís Ruffino, Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez) e Raquel Santiago.

42 comentários sobre “O Piquenique Trágico Alexandre Pignanelli

  1. Como é bom conhecer mais um pouco da história de Americana…chegamos aqui em fevereiro de 1976,somos da Bahia…sempre busquei saber mais sobre Americana,onde toda minha família vive até hoje.A família do meu sogro são bem antigos aqui, quanta história me contaram! Ainda hoje passeamos com nossos filhos pelos cantos da cidade,é lindo ver meu marido contar o que viveu e aprendeu…enfim…estou emocionada em ler tal história, embora muito triste,me cativou.A desconhecia,mas agora vou contar e ler mais sobre nossa cidade! Parabéns!!!

  2. Sempre ouvi falar, pelo meu pai e meu sogro, o qual morou a vida toda, até 74 anos, bem próximo ao Parque, depois chamado Jardim da Piscina. Contavam sobre o pic-nic trágico. Mas nem eles que nasceram em data próxima d aquele acontecimento, sabiam tantos detalhes.
    Mas essa história era realmente muito comentada na minha infância. E a música era muito ouvida.
    Apesar de ser uma história muito triste, achei importante conhecer os detalhes e saber o nome dos envolvidos.

  3. Excelente resgate. Minha mãe sempre falou do Parque Ideal, mas por mais que ela relatasse eu nunca consegui imaginá-lo como nas fotos, muito menos sua dimensão. Certamente a trágica morte de Agar a deixou de certo modo imortal com esse resgate bem como todos os envolvidos, desde o pequeno grande herói José Santiago até os Benancassi e tão recentemente Alexandre com esse magnífico resgate. Sou americanense, mas vivo em Campinas a 38 anos, nunca esqueço da minha cidade e estou sempre por aí.
    Sugiro que a orquestra de Americana resgate todas essas partituras e faça a edição, um lançamento desse material certamente teria o apoio de muitos americanenses.

  4. No bairro São Pedro, aqui em Americana existe uma Rua com o nome de Francisco Lapierre, CEP. 13.466-510. Seria essa pessoa a mesma contida nesse relato?

  5. Vim para Americana em 1968, sempre ouvi comentários do “piquenique trágico”, mais sem muitos detalhes, achei muito bonito esse resgate, muito embora trágico faz parte da história de Americana, parabéns

  6. Excelente historia que fez me lembrar de outra, onde era flebotomista em um laboratório e fui até a casa de uma Benencase que agora infelizmente nao me lembro o nome , mas era uma senhora toda vaidosa e muito bem educada e dotada de uma dicção apurada…mas o que me chamou muito a atencao foi onde mesma tocava seu piano, que para mim era algo magnifico… como queria ter voltado mais la so para ve- la tocar aquele piano…bom onde quero chegar que americana é dotada de tanta histórias e não a ha o devido reconhecimento e onde existirão musicos maravilhosos.
    A reportagem foi muito relatada, muito legal ficar sabendo mas um pouco desta cidade onde faco moradia, Valeu!

    • Uma informação, Esse maestro compositor Germano Benencasi por acaso tinha algum parentesco com o produtor sertanejo Lulu Benencasi, do antigo programa sertanejo “Festa na Roça” pela Rádio Difusora ou Tupy, ( não me lembro) nos anos 60 ? inclusive o Lulu Benencasi era de Americana SP, ele morava com uma irmã . residia em SP mas a cada 15 dias visitava a irmã. Eu participei vários anos no programa dele em S. Paulo, O Lulu, era uma grande pessoa e um grande amigo, e me ajudou bastante no Rádio na época. Obrigado.

      • Sim, eles eram irmãos. Germano era o mais velho, nascido na Itália; Lulu (oficialmente, Amálio) era o mais novo, nascido já no Brasil, para onde a família Benencase veio alguns anos após o nascimento de Germano. Os dois tinham mais sete irmãos.

      • Prezado Sr. David Saidel,
        Sim, Germano e Lulu eram irmãos. E a irmã que ele visitava em Americana era a Lúcia (carinhosamente e “italianamente” chamada de Lutía). Sou sobrinho-neto deles. Fico muito feliz com o depoimento do senhor pois não conheci o Lulu, já que nasci 3 meses após sua partida. Se puder me contar maiores detalhes desta sua amizade com ele, especialmente na questão sobre sua presença na rádio junto com ele, ficarei muito grato: meu email é toniarquiteto@gmail.com. O Rolando Boldrim também foi muito amigo do Lulu e fez até uma homenagem a ele que está no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=8W52nc-JoYE.
        Um fraterno abraço,
        Toni.

  7. Excelente a historia contada com precisão e detalhes e um resgate dum momento trágico apesar de uma morte outras foram salvas,e que estrago o “progresso” fez na cidade….

  8. Nossa família mal sabia que nosso avô tinha sido um herói! Apenas meu Tio, filho mais velho do meu avô, sabia apenas que ele tinha salvo apenas uma garotinha!
    E depois, quando um dia postei no face uma foto de uma pintura a óleo da minha Bisavó Augustinha Duport feita por Lapierre foi que Fabiana, esposa do Alexandre, que fez esse resgate histórico, comentou que Lapierre tinha sido uma das pessoas que meu avô havia salvado !! E que a irmã de meu avô, posteriormente foi aluna de pintura de Lapierre. E que ainda hoje temos um quadro a óleo feito por ela!! Realmente foram muitas descobertas oportunizadas por esse resgate histórico! Mais uma vez parabéns Alexandre!!

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